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Editorial

É altura de os bancários lutarem

É altura de os bancários lutarem
António Fonseca

Houve um tempo em que a Banca tinha vergonha na cara e sabia que o seu comportamento tinha repercussões na sociedade – e, sobretudo, nos clientes. Confiança e bom nome eram palavras com sentido.
Na Banca não havia despedimentos coletivos, apenas em situações extremas havia greves e menos ainda vozes denunciando procedimentos irregulares na relação com clientes e com trabalhadores.
Os bancários eram respeitados, pelos clientes e pela Banca. Tinham salários dignos, benefícios profissionais conquistados à mesa das negociações e estatuto social.
Mas tudo mudou. Primeiro lentamente, agora em velocidade recorde.
Se antes cada Instituição de Crédito fazia questão de estar próximo dos clientes, agora deixa populações inteiras sem acesso aos seus serviços – se quiserem, utilizem os canais digitais…
Em muitas localidades, estão as câmaras municipais a custear os equipamentos, até para que as pessoas possam movimentar o seu dinheiro!
E quanto aos bancários? São cada vez mais uma profissão em extinção, devorados por uma Banca voraz de lucro fácil.
É neste ambiente laboral de ritmos intensos, pressão, receio e maus salários que chegamos aqui.
A Banca uniu-se como um bando para esmagar os seus trabalhadores. Nas mesas negociais das várias convenções coletivas, faz finca-pé no mesmo valor de aumento salarial: 2%.
Com sobranceria e profundo desprezo pelos que contribuíram ou contribuem diariamente para os seus lucros fabulosos, recusa-se a aceitar um aumento que pelo menos faça frente a uma inflação que já ultrapassa os 3%.
Com a indiferença dos poderosos, condena trabalhadores, reformados e respetivas famílias a tentarem esticar salários e pensões, numa verdadeira luta pela sobrevivência. É revoltante, no setor mais rentável da sociedade portuguesa.
Por norma, os bancários não são adeptos da contestação e do alarido social, embora sempre que foi necessário soubessem fazer valer os seus direitos – até sob o jugo da ditadura. Desta vez, face a uma situação que se tem arrastado, a Banca ultrapassou o risco. Os novos administradores não têm memória nem fazem o trabalho de casa. Caso contrário, saberiam pelo passado que os bancários estão no limite. Os prémios e os incentivos são uma cenoura envenenada que os mantém sob pressão e desaparece a qualquer momento.
Os jovens licenciados entram na profissão, desiludem-se e partem à procura de melhores salários, no país ou no estrangeiro. Os que têm mais anos na banca, olhem para os colegas recém-reformados e vejam como vivem quando a pensão fica reduzida ao salário, pois os prémios, as isenções de horário e as remunerações variáveis não entram no cálculo.
O momento de rutura é agora. É tempo de os bancários se unirem e lutarem pela qualidade de vida que merecem – e que a Banca tem capacidade para lhes proporcionar. O Mais Sindicato está pronto para apoiar os sócios, em tudo.
Clientes descontentes e bancários unidos pode ser a tempestade perfeita. Seria altura de os banqueiros mostrarem mais respeito.
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