Harmonia não é uma palavra vã, sobretudo quando se trata de pessoas – que são bancários, mas também existem fora da instituição onde trabalham. São pais ou mães, filhos ou avós. São seres individuais com sonhos, planos, ambições e direito a tempo e disponibilidade para a vida familiar e social. O seminário “A Arte de Conciliar”, organizado pela Comissão de Igualdade (CI), foi um incentivo para a reflexão sobre como promover esse tão importante equilíbrio
Inês F. Neto
O seminário anual da Comissão de Igualdade do Mais Sindicato decorreu entre os dias 29 e 31 de maio, nas Caldas da Rainha, sob o tema “A Arte de Conciliar”. O evento reuniu cerca de uma centena de sócios e respetivas famílias e ficou marcado por um ambiente de partilha, reflexão e convívio, destacando-se a importância do equilíbrio entre a vida profissional e pessoal no contexto atual.
Os trabalhos tiveram início na sexta-feira, com a receção aos participantes e um jantar de boas-vindas, que proporcionou um primeiro momento de integração e de convívio informal entre todos os presentes.
Recorde-se que a CI é composta por Cristina Trony (coordenadora), Nuno Valente, Alexandra Nunes, Rui Lavoura e Ana Milho.
Não luxo, mas direito
Por sua vez, Cristina Trony frisou que este tema não é apenas atual, mas absolutamente determinante para o futuro do setor bancário e para a qualidade de vida de quem nele trabalha.
A coordenadora da CI destacou que a conciliação entre a vida profissional e pessoal “não é um luxo, nem um benefício acessório, mas sim um direito, uma necessidade humana e uma condição essencial para organizações saudáveis, produtivas e sustentáveis”.
Nos últimos anos, salientou, o setor bancário tem atravessado transformações profundas: digitalização acelerada, novas exigências regulatórias, reestruturações constantes e uma pressão crescente sobre resultados. “Tudo isto tem impacto direto no bem estar dos trabalhadores.”
Na sua intervenção, a coordenadora sublinhou ainda que conciliar vai muito além da gestão de horários. “Conciliar é garantir que cada trabalhador pode ser profissional sem deixar de ser pessoa; é assegurar que ninguém tem de escolher entre a carreira e a família, entre o desempenho e a saúde mental, entre o compromisso com a instituição e o compromisso consigo próprio.”
Cristina Trony enfatizou também a ligação direta deste tema à igualdade de género, à justiça social e à dignidade laboral. “Trabalhar para identificar práticas positivas, denunciar desigualdades e propor soluções é uma tarefa de todos nós. Sabemos que a mudança exige diálogo, compromisso e visão estratégica”, concluiu Cristina Trony.
Seguiu-se uma mesa-redonda em que participaram responsáveis pelos Recursos Humanos do Novobanco e do Banco de Portugal e uma tertúlia orientada pelo coach Bruno Pedrosa (ver texto).
O encerramento do seminário esteve a cargo do vice-presidente do Mais Sindicato, João Ferreira.
Benefícios não formalizados
O vice-presidente destacou que, embora existam já práticas e benefícios atribuídos pelos bancos aos trabalhadores — como, por exemplo, o dia de aniversário —, “estes nem sempre são formalizados nos Acordos de Empresa ou Acordos Coletivos de Trabalho”.
Esta situação levou João Ferreira a lamentar que durante as negociações, os bancos continuem a recusar-se a incluir estes benefícios nas convenções coletivas.
O programa de sábado terminou com um lanche no jardim do hotel, seguido de um jantar e de um momento musical proporcionado pelo duo “Sol Acústico”, reforçando o espírito de proximidade, convívio e partilha que marcou todo o seminário.
O Encontro anual da CI reafirmou a importância de continuar a promover uma cultura organizacional mais equilibrada, inclusiva e orientada para o bem-estar dos trabalhadores, assumindo a conciliação como um desafio coletivo e uma verdadeira “arte” a ser continuamente construída.
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Implementar programas para o bem-estar laboral
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As organizações devem assumir um compromisso estruturado com o bem-estar laboral, implementando programas abrangentes de saúde e qualidade de vida que promovam condições de trabalho saudáveis, equilibradas e sustentáveis. Cristina Trony, coordenadora da Comissão de Igualdade, citou alguns exemplos de práticas que podem – e devem – ser implementadas pela Banca na promoção de boas práticas. – Modelos de flexibilidade inteligente, que respeitem as necessidades das equipas e das pessoas; – Gestão de cargas de trabalho, para que a produtividade não se faça à custa da exaustão; – Cultura organizacional inclusiva, em que pedir equilíbrio não seja visto como falta de empenho; – Formação contínua, importante para que as equipas estejam motivadas e atualizadas; – Formação para lideranças, pois a mudança começa sempre no exemplo; – Políticas de incentivos diversificadas, que não se limitem exclusivamente à componente financeira. – Incentivos de natureza social e organizacional, que sejam oportunidades de desenvolvimento profissional, reconhecimento institucional, flexibilidade e apoio psicossocial – contribuindo assim, de forma decisiva, para a motivação, retenção e satisfação dos trabalhadores. A promoção de ambientes de trabalho saudáveis, aliados a modelos de incentivos mais amplos e inclusivos, constitui hoje um pilar fundamental para reforçar a produtividade, a coesão interna e a responsabilidade social das organizações, frisou a coordenadora da CI do Mais Sindicato.
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Perspetivas de conciliação
Do teletrabalho aos incentivos

Um debate com a participação de responsáveis da Banca permitiu uma visão distinta. Já a tertúlia incentivou os participantes a analisar o seu próprio equilíbrio
Inês F. Neto
Os trabalhos do seminário “A Arte de Conciliar” contaram ainda com a realização de uma mesa-redonda, moderada por Nuno Valente, membro da Comissão de Igualdade. Participaram Conceição Carvalho, Diretora Central da área de Capital Humano do Grupo Novobanco, e Pedro Raposo, Diretor do Departamento de Pessoas e Estratégia Organizacional do Banco de Portugal.
Durante o debate, foram abordadas diversas perspetivas sobre a conciliação entre vida profissional e pessoal, com destaque para temas como o teletrabalho, os programas de incentivos não financeiros e
a importância da formação de lideranças e equipas.
Os representantes da Banca abordaram igualmente os desafios associados ao uso excessivo de políticas que promovem o trabalho fora do local tradicional, alertando para o risco de fomentar o individualismo.
Parentalidade
Já no âmbito da parentalidade, salientou-se o facto de as mulheres continuarem a ser as mais penalizadas, sendo consensual que a partilha equilibrada das responsabilidades parentais — idealmente numa lógica de 50/50 — é essencial para reduzir desigualdades. Essa constatação remeteu para a escassez de apoios institucionais às famílias, particularmente relevante para as mulheres enquanto principais cuidadoras e perpetuando a sua penalização.
Outro tema abordado prendeu-se com o surgimento de discursos mais extremados entre as camadas jovens, considerados um possível sinal de retrocesso nos direitos das mulheres. A participação ativa do público, cujos contributos enriqueceram significativamente a discussão, encerraram a mesa-redonda.
Equilíbrio pessoal
Por fim, realizou-se uma tertúlia orientada pelo coach Bruno Pedrosa, apresentada por Alexandra Nunes, também membro da Comissão de Igualdade.
Esta sessão promoveu uma reflexão mais individual, incentivando os participantes a analisar o seu próprio equilíbrio entre as várias dimensões da vida.