Os maiores bancos resgatados pelos contribuintes norte-americanos continuam a impingir aos seus clientes, de forma agressiva, cartões de créditos e outros produtos financeiros desnecessários, de acordo com um relatório da NELP – National Employment Law Project. Análise de dados, processos e entrevistas com vários trabalhadores bancários revelaram práticas sem escrúpulos que a Wells Fargo e outros grandes bancos dos EUA têm praticado. Os trabalhadores bancários já alertaram os governantes para a necessidade de proteger os consumidores e trabalhadores através de novas medidas que evitem práticas predadoras e sistemas de venda agressiva.
“Oito anos após a crise financeira, os CEO´s e acionistas de Wall Street enchem as suas contas bancárias com sistemas de venda imorais e exploradores”, afirma Anastasia Christman, autora do relatório. “Os grandes bancos estão a usar os trabalhadores bancários para atirar areia para os olhos dos consumidores. Os americanos confiam nos bancários mas estes são obrigados a vender cartões de crédito e outros produtos financeiros para manterem o seu emprego.”
Queixas
O relatório mostra que nos últimos seis anos, as queixas à Autoridade de Proteção Financeira ao Consumidor aumentaram – só no último ano esse aumento foi de 34%. Os bancos continuam a colher os frutos das práticas agressivas. A Wells Fargo obteve quase um quarto dos ganhos a partir de taxas, e o CEO de um banco médio leva para casa um salário 455 vezes maior que o de um trabalhador médio americano. O relatório indica que os trabalhadores bancários mais mal pagos são os que sofrem maior pressão para executarem estas práticas, sendo obrigados a escolher entre o interesse do consumidor ou o seu próprio emprego.
“Quando vim para os Estados Unidos como refugiado, estava entusiasmado por descobrir aquilo que pensava ser um bom emprego num banco grande mas a pressão que enfrentamos nem me deixa dormir”, afirma Khalid Taha, bancário da Wells Fargo. “Se a Wells Fargo fala a sério sobre servir os clientes então devia ouvir-nos. Quero ajudar os clientes sem me preocupar se posso vir a perder o emprego caso não consiga vender uma quantidade absurda de cartões de crédito ou empréstimos”.
Pressão
No relatório é possível ver como os maiores bancos norte-americanos continuam a ver trabalhadores e clientes como “máquinas de venda automática”. Um trabalhador do Bank of America contou uma história de quando um colega seu não forçou a venda de um produto a um potencial cliente. “A conta estava sem saldo e o cliente disse que tinha perdido o emprego. O gerente do banco disse ao trabalhador que devia ter oferecido à mesma um cartão de crédito porque não é da responsabilidade do banco pagar as contas mas sim vender produtos”.
Dos pontos mais importantes do relatório apresentado ao Congresso destacam-se:
– O aumento das queixas às autoridades do consumidor. Entre 2014 e 2016, o aumento foi de 34%;
– As taxas abusivas continuam a ser uma fonte de receita relevante para os bancos, entre cobranças sobre depósitos, cartões de crédito e outros produtos. Só em 2013, os norte-americanos gastaram 32 biliões em taxas;
– Os trabalhadores sofrem devido à pressão das vendas enquanto os seus salários diminuem. Os ordenados dos bancários têm vindo a cair desde os anos 70 e, em média, um em cada três recebe menos do que 15 dólares/hora;
– Um CEO de um banco médio ganha quase 455 vezes o salário médio de um norte-americano e o lucro das instituições continua a subir graças a cartões de crédito, duplicação de contas e ferramentas financeiras com taxas.
O relatório afere ainda que muitos trabalhadores não têm condições para denunciar práticas abusivas/ilegais. Ao mesmo tempo que afirmam querer ajudar os clientes com a melhor solução, veem-se obrigados a não o fazer para conseguir ganhar um pouco mais.
Na União Europeia, Brasil e outros países, trabalhadores e instituições têm-se unido para proteger o consumidor e garantir melhores condições de trabalho.

