Milhares de pessoas participaram ontem na manifestação do 1.º de maio organizada pela UGT, descendo a Avenida da Liberdade, em Lisboa, exigindo mais emprego e justiça social. Carlos Silva, no seu primeiro discurso no Dia do Trabalhador como líder da central frisou que “a austeridade falhou. Há outro caminho, o da sensibilidade social, da justiça social e da solidariedade”. E deixou um recado ao Governo: “O consenso não pode ser simbólico e despido de consequências.”
À semelhança dos anos anteriores, o 1º de maio foi dominado pela crise e pelo desemprego. Mas não só. O aumento das desigualdades sociais, da pobreza e da exclusão social; as dificuldades dos reformados e pensionistas; a perda do poder de compra dos portugueses e o estrangulamento da economia nacional pelas exigências da troika e pelas políticas do Governo tornaram a vida ainda mais difícil do que há um ano.
Por isso, razões não faltaram para milhares de pessoas desfilarem na Avenida da Liberdade, em Lisboa, integrando a manifestação da UGT e exigindo melhores condições de vida e respeito por quem trabalha – e por quem quer trabalhar e não tem onde.
Do Marquês de Pombal aos Restauradores gritou-se: “Crescimento e emprego, recuperar a esperança”, “Pela democracia, com os sindicatos”, “Crescimento e emprego, justiça social”, “Trabalhadores e pensionistas, a mesma luta”, “melhor economia, mais emprego”, “Diálogo social sim, imposição não”, “Menos precariedade, mais oportunidade”, “Pelo direito ao trabalho, pelo direito á dignidade”, “Sindicalismo responsável: UGT, UGT, UGT”.
Mobilização expressiva
Mais uma vez os sindicatos responderam ao repto da central e mobilizaram os trabalhadores dos respetivos sectores para estarem presentes na Avenida da Liberdade.
Os trabalhadores do sector financeiro acorreram à manifestação da UGT. Sob a alçada comum da Federação do Sector Financeiro (Febase), os trabalhadores representados pelos Sindicatos da Banca (MAIS, SBN e SBC) e dos Seguros (STAS e SISEP) ocuparam o primeiro lugar desde a cabeça da manifestação, que tradicionalmente abre com a juventude, logo atrás da faixa empunhada pelos dirigentes.
Assim, bancários e trabalhadores dos seguros desfilaram até aos Restauradores empunhando panos onde se podiam ler palavras de ordem significativas: “Lutar pela defesa dos postos de trabalho, defender os trabalhadores”, “Sim à negociação coletiva, não ao capitalismo de casino”, “Contra os cortes nas pensões e reformas”, “Contra as reduções salariais nas empresas do setor empresarial do Estado”.
Reunidos espacialmente num único grupo que representava o sector financeiro, os trabalhadores marcharam unidos envergando t-shirts e bonés brancos com o logótipo da Federação.
Além de carros de apoio, a delegação contou ainda com o incentivo visual e sonoro de bombos e gigantones, além das faixas.
Recorde-se que antes da manifestação, bancários e trabalhadores dos seguros filiados nos cinco sindicatos da Febase reuniram-se num almoço-convívio nas instalações do MAIS na Marquês de Fronteira, de onde partiram para se juntarem aos restantes milhares de trabalhadores que participaram no 1º de maio da UGT.
Revindicar condições dignas
O desfile até aos Restauradores foi encabeçado pelo secretário-geral e pela presidente da central sindical, bem como por dirigentes dos sindicatos, nomeadamente da Febase. Na cabeça da manifestação seguiram Rui Riso, Horácio Oliveira, Manuel Camacho e Teresa Pereira (MAIS), Patrícia Caixinha e Carlos Marques (STAS), Aníbal Ribeiro (SBC) e Mário Mourão (SBN).
João Proença não faltou. Depois de um forte abraço ao seu sucessor, juntou-se aos manifestantes anónimos que desfilavam avenida abaixo.
Ao palco montado nos Restauradores subiram os elementos do Secretariado Executivo da UGT, bem como os seus dois principais dirigentes.
Lucinda Dâmaso, presidente da central, iniciou os discursos, recordando a importância do Dia do Trabalhador e lembrando o drama do desemprego e dos pensionistas.
“A UGT reafirmará a continuação da reivindicação de condições dignas de trabalho para todos, que permitam uma vida digna a todos, e ainda mais justiça e mais solidariedade”, disse a presidente da UGT, acrescentando:
“Vivemos momentos difíceis, em que os milhares de trabalhadores se encontram no desemprego e milhares de pensionistas e reformados vivem em condições de pobreza ou quase pobreza”.
Lucinda Dâmaso garantiu que a UGT “continuará a exigir, em sede de concertação e negociação, o relançamento da economia que permita a criação de emprego e uma vida digna para todos”.
Renegociar o Memorando
Também Carlos Silva, no seu primeiro discurso no 1.º de maio como secretário-geral da central, recordou a luta dos operários de Chicago na defesa dos direitos dos trabalhadores, que hoje “estão a ser postos em causa por uma agenda liberal que assola a Europa”.
Criticando as políticas liberais e insensíveis em que o capital e o poder financeiro se sobrepõem ao político e ao social, disse: “Não é este o Portugal que queremos, não é esta a Europa que construímos.”
“Exigimos que a Europa demonstre a sua solidariedade, através da introdução de um pacto social que vise combater o desemprego e garantir a aposta na educação e na formação”, frisou.
Num discurso de oito minutos, Carlos Silva enviou vários recados, tendo como principal alvo o Governo.
Relativamente às políticas atuais, o secretário-geral da UGT foi categórico: “A Austeridade falhou. Há outro caminho, o da sensibilidade social, da justiça social e da solidariedade.”
E deixou um recado ao Governo: “A submissão aos interesses da troika secundarizando os direitos dos cidadãos é uma postura inaceitável. [Devemos] exigir a renegociação do Memorando e adaptá-lo à realidade portuguesa.”
Um caminho que exige diálogo e negociação, mas não a qualquer preço. “O consenso de que tanto se fala, mas pouco se vai praticando, não pode ser simbólico e despido de consequências.” A UGT quer diálogo “social e político”, mas este “implica disponibilidade de todos, e em particular do Governo”.
Reafirmando a disposição da central para o diálogo e a concertação, voltou a afirmar o que tinha dito no Congresso da sua eleição: “Se tivermos de decidir entre a defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores e os credores que nos emprestam dinheiro, a UGT não pode vacilar.”
E em declarações aos jornalistas avisou que a UGT “pode muscular a ação de rua” contra mais medidas de austeridade. “O Estado social não pode ser posto em causa. Temos de mudar de políticas”, frisou.
“Todos temos responsabilidades, estamos todos no mesmo barco. Chama-se Portugal”, disse Carlos Silva, sublinhando a necessidade de união e repetindo o repto à CGTP: “Não podemos desiludir os portugueses continuando de costas voltadas, sobretudo entre o movimento sindical.”

