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Austeridade acentua declínio salarial na UE

​Entre 2009 e 2012, os salários reais caíram em 15 dos 28 Estados-membros, com especial incidência nos países alvo de resgate financeiro, como Portugal. Os dados são do Instituto Sindical Europeu.

 

As medidas políticas da União Europeia e dos governos nacionais acentuaram os efeitos da crise: na maioria dos Estados-membros o desemprego continua a aumentar, os salários mantêm-se em queda, uma parte crescente da população está em risco de pobreza e a retoma económica é uma miragem.

A conclusão é do Instituto Sindical Europeu (ISE), centro de investigação da Confederação Europeia de Sindicatos (CES), que publicou recentemente um relatório sobre a evolução salarial na UE entre 2000 e 2012, intitulado Benchmarking Working Europe.

Numa infografia que pode ser consultada online, o Instituto detalha a evolução salarial dos 28 Estados-membros da União Europeia em dois períodos distintos: o período pré-crise, de 2000 a 2008, e o período da crise, de 2009 a 2012. Os dados não podiam ser mais claros e refletem o impacto das medidas de austeridade sobre os salários e o desemprego.

Na maioria dos países onde o desemprego está a aumentar, os salários estão a cair, com graves consequências em relação ao crescimento do risco de pobreza e exclusão social.

“As políticas levadas a cabo pelos responsáveis políticos europeus e pelos governos têm agravado os problemas existentes e adicionado à atual crise económica uma profunda crise social”, refere o Instituto.
A infografia mostra ainda que o declínio é mais acentuado nos países alvo de intervenção financeira, como é o caso de Portugal, onde entre 2000 e 2008 os salários reais aumentaram 0,6797%, mas entre 2009 e 2012 sofreram uma queda de -1,6144%.

Em 2011, para uma população estimada em 10,5 milhões de habitantes, o risco de pobreza e exclusão social cifrava-se nos 24,4%.

 

Queda do salário mínimo

 

O ISE faz igualmente referência à diminuição do salário mínimo, que “afeta a parte mais vulnerável da população”. Mais uma vez, a queda é notória nos países intervencionados.

A Grécia, por exemplo, viu o salário mínimo diminuir em 4,7 pontos percentuais em 2010 e em 1,9% em 2011. Já em 2012 sofreu uma queda brutal de 24,3%.
Portugal registou uma subida de 0,7% em 2010, tendo a partir daí assistido a uma queda de -3,7% em 2011 e de -2,8% em 2012.
A infografia mostra ainda que na maior parte dos países o PIB per capita sofreu quedas consideráveis durante o período da crise e o rendimento proveniente do trabalho tem cada vez menos peso no rendimento total global.

 

Europeus contra União?

 

A Confederação Europeia de Sindicatos reagiu através da sua secretária-geral. “O que este mapa prova é que os salários são o principal alvo das medidas de austeridade”, disse Bernadette Ségol.

“O progresso social parece ter-se tornado num obstáculo para a União Económica e Monetária, em vez de um objetivo”, acrescentou a líder sindical, apontando o dedo às políticas de cortes nos gastos públicos, salários e benefícios. “O perigo hoje é a construção de uma Europa sem o apoio dos europeus ou, pior, contra a vontade dos europeus”.
Para a secretária-geral, a UE deve adotar as propostas da CES, que incluem um plano de investimento em larga escala, cujo intuito passa por impulsionar a indústria e o emprego como transição para uma economia mais sustentável.

 

CES apoia Draghi

 

Os efeitos devastadores das medidas de austeridade na União Europeia, e especialmente na zona euro – onde o crescimento económico é nulo e o risco de deflação grande –, começam a preocupar alguns dos responsáveis europeus, cujos discursos denotam uma certa vontade de alterar o rumo.
Recentemente, Mario Draghi suavizou o seu discurso sobre a austeridade e apelou a que a Europa faça mais para impulsionar as economias.

No entendimento de Bernadette Ségol, as declarações do presidente do BCE são “encorajadoras” e deram novo impulso às opiniões similares de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, e dos governos francês e italiano – o problema é a Alemanha, que continua a ser um entrave à mudança de rumo.

Ségol mostra-se uma otimista cética: “A verdade é que a austeridade não está a funcionar e são necessárias novas políticas para relançar a economia europeia. Sem estar demasiado otimista, tenho esperança que os políticos europeus percebam que os investimentos públicos são necessários para criar emprego, gerar crescimento e estimular o investimento privado”, concluiu.
 

A infografia do ISE pode ser consultada aqui

 

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